Descrição

Nos túneis subterrâneos do garimpo de Ametista do Sul, município localizado no Norte do Estado, o som de picaretadas e explosões ajudam a compor a sinfonia de mais um dia de trabalho. Das paredes de rocha caem as pedras preciosas que impulsionam a economia da cidade, vendidas no Brasil e no mundo, em tons de azul e violeta. Assim como em Ametista do Sul, dezenas de outras comunidades brasileiras trabalham em pequenas extrações de minério, prática que tem como característica o impacto reduzido ao meio ambiente.

Realizada por mineradores da Cooperativa de Garimpeiros do Médio Alto Uruguai (Coogamai), a extração no Norte do Rio Grande do Sul acontece em uma escala sustentável, que permite o reaproveitamento dos rejeitos e a recuperação das áreas atingidas pela garimpagem. Além disso, a lava vulcânica que, há milhares de anos, gerou as pedras Ametista também é rica em minérios que podem ser usados na produção alimentar. "Não praticamos mineração em grande escala porque depois fica muito difícil para recuperar o solo.

Diferentemente de grandes empresas, como a Vale, que causou uma grande devastação ambiental, a nossa cooperativa depende, exclusivamente, desta região e tem que preservá-la", esclarece Isaldir Antônio Sganzerla, presidente da Coogamai, primeira cooperativa de garimpeiros do Brasil, atualmente formada por 2 mil mineradores. Os resíduos de rocha que sobram da extração no interior do Estado podem ser reutilizados como adubo para agricultura orgânica e como material para construção civil. Porém, para isso, ainda falta um trabalho aprimorado de pesquisa e logística. "Acontece que não temos investimentos para industrializar esse rejeito, que permitiria a criação de novas vagas de trabalho e um maior aproveitamento desses resíduos", explica Sganzerla.

Buscando elencar as principais demandas das cooperativas de mineração espalhadas pelo País, a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) realiza uma série de entrevistas com mineradores e cooperados, a fim de conhecer a realidade das cooperativas com foco em três vieses: operacional, contábil e tributário. A ideia é fazer um raio X da atividade e, com isso, desenvolver o diagnóstico que subsidie a realização de iniciativas que tragam mais segurança jurídica e, assim, mais resultados socioeconômicos aos cooperados desse ramo. "Esse documento servirá de base para um rol de ações a serem implementadas em prol da construção de um ambiente seguro para que essas cooperativas operem.

Esse tipo de diagnóstico já foi feito antes, mas é necessário renová-lo de tempos em tempos", diz Flávia Zerbinato, analista técnico-econômica da OCB, entidade de representação dos interesses de todas as cooperativas do País junto aos Três Poderes da República. O objetivo, ao final do projeto, é ter um direcionamento sobre a atuação das cooperativas de mineração em todo o Brasil e indicar um alinhamento na forma de atuação das mesmas, podendo sugerir melhorias em caso de necessidade ou apresentar as soluções desses empreendimentos frente às questões necessárias para a classe.

O relatório, que conta com um questionário de 160 questões, será finalizado no segundo semestre deste ano. Até chegar nos Três Poderes, em Brasília, para atenção dos parlamentares e andamento das demandas, tem uma caminhada longa. Segundo analista técnico-econômica da OCB, as cooperativas de mineração trabalham de forma organizada, visando sempre ao direcionamento do rejeito de sua atividade para utilização das mais diversas formas, tais como a recuperação da própria área. "Vale destacar que, devido ao fato de o modelo de extração se dar em circuito fechado e em áreas de aluvião, 99% das cooperativas geram rejeitos possíveis de comercialização", esclarece Flávia.

Bons exemplos desses rejeitos sólidos e sem contaminantes são a brita, a areia e o basalto. "Assim, elas não geram risco nem para a população, nem para o meio ambiente." Como em Ametista do Sul, existem mais 96 cooperativas especializadas no ramo mineral atuando no Brasil, o que soma mais de 25 mil garimpeiros. Essas cooperativas têm uma característica social muito diferente de empresas convencionais do setor de mineração. Ao menos na teoria, o lucro não é o principal motor, mas sim a qualidade de vida dos cooperados. E diferentemente daquele traumático tsunami de lama que atingiu duas vezes Minas Gerais, a sustentabilidade dessas cooperativas podem ser uma solução possível.

 - Jornal do Comércio/Pedro Carrizo

 





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